quinta-feira, 3 de outubro de 2019

RESENHA: Um lugar bem longe daqui

Por anos, boatos sobre Kya Clark, a “Menina do Brejo”, assombraram Barkley Cove, uma calma cidade costeira da Carolina do Norte. Ela, no entanto, não é o que todos dizem. Sensata e inteligente, Kya sobreviveu por anos sozinha no pântano que chama de lar, tendo as gaivotas como amigas e a areia como professora. Abandonada pela mãe, que não conseguiu suportar o marido abusivo e alcoólatra, e depois pelos irmãos, a menina viveu algum tempo na companhia negligente e por vezes brutal do pai, que acabou também por deixá-la.
Anos depois, quando dois jovens da cidade ficam intrigados com sua beleza selvagem, Kya se permite experimentar uma nova vida — até que o impensável acontece e um deles é encontrado morto.
Ao mesmo tempo uma ode à natureza, um emocionante romance de formação e uma surpreendente história de mistério, Um Lugar Bem Longe Daqui relembra que somos moldados pela criança que fomos um dia e que estamos todos sujeitos à beleza e à violência dos segredos que a natureza guarda.
A obra foi incluída no clube /e livros de Reese Witherspoon, que posteriormente adquiriu os direitos de adaptação cinematográfica e vai produzir o filme com a Fox 2000.

O mais intenso desse livro é como a solidão é tão intrínseca a vida de Kya. Abandonada por cada parente e afastada por todos os habitantes da cidade, seu crescimento veio da vivência na natureza, de onde ela buscou sustento e companhia. Sua dificuldade de confiar nas pessoas, de se abrir e viver a vida "comum" foi plenamente justificada e, por mais que alguns erros como os de Tate sejam passíveis de perdão, podem marcar bastante a vida de qualquer pessoa, e principalmente de alguém com o histórico de Kya.

Não sei se todo mundo que leu esse livro se sentiu assim, mas me doía cada refeição feita pela jovem Kya, todos os seus esforços para conseguir dinheiro, as roupas que não serviam mais e sua esperança que alguém a buscaria, reconheceria e gostaria de sua presença.A revolta com as pessoas que viam sua condição e não ajudavam também foi um ponto dolorido e dá para trazer esse aspecto do livro para nossa realidade com grande facilidade, infelizmente. O mesmo ocorre com a condição do negro: para um enredo desenvolvido entre os anos 1950 a 1970, mudanças foram feitas, mas o preconceito ainda está em plena ação.

Creio que a experiência da autora como cientista tenha dado ao brejo e as espécies que ali habitavam descrições muito críveis e que ajudaram a formar minha imagem do lugar. Gostei muito desse lado, em especial porque dava uma dimensão nova a vida da Kya, e demonstrava também o quanto era rico um lugar tão desprezado. 

O brejo foi um grande personagem, assim como foram Pulinho, Tate e Mabel. Me apaguei a eles e também fiquei um pouco brava com algumas decisões (não é, Tate?), mas sempre torcia para ler as interações entres eles e Kya. A atenção e amor dispensados à ela me tocaram muito.

Os últimos capítulos certamente me deixaram ansiosa e com medo do que seria de Kya. Foram neles que o preconceito mais tem força (não só pela cor, mas pela condição social e pelo isolamento) e me remeteu a algumas cenas de "O sol é para todos". E o final foi surpreendente.

Comecei esse livro no meio de uma ressaca literária terrível e acabei encostando-o por quase um mês, e durante esse tempo fiquei com a impressão errada sobre seu início: não era devagar como eu pensava, ou sem grandes acontecimentos. Quando finalmente voltei a lê-lo me vi tão presa pela vida de Kya que terminei de ler em dois dias. A autora sabe nos inserir na rotina de Kya e sentir seus medos e frustrações, faz o leitor torcer para dar tudo certo para ela, para que finalmente tenha um pouco de felicidade. Valeu cada página e espero ter oportunidade de ler mais Delia Owens.

Sobre o livro:
ISBN: 9788551004876 
Autora: Delia Owens
Editora: Intrínseca
Ano:2019
Páginas: 336

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