sexta-feira, 15 de julho de 2011

Harry Potter Day - Resenha Harry Potter e as Reliquias da Morte - parte 2


Por: Selhe Moreira
Colaboração: Ludmila Nascimento



Ainda agora, enquanto tentamos escapar aos muito sedutores clichês de fim de qualquer coisa, uma sensação de clareza súbita se apodera de nosso raciocínio, de certa forma bloqueando a escrita desta resenha. Tudo isso porque falar do último filme da série mais bem sucedida da história do cinema é uma tarefa um tanto inglória, não só por sermos ambas admiradoras da saga – sendo a senhorita Lucita Sibila inclusive daquelas que aparece na TV dando entrevista pra noticiário do meio-dia #prontofalei – mas porque sabemos o fascínio que a série como um todo exerce sobre os seus fãs, que tratam tudo relacionado à ela com dedicação apaixonada.


Falar de Harry Potter, portanto, é como meter a colher numa relação de amor que já dura 14 anos e 10 anos incompletos – idade do primeiro livro da série literária e da primeira adaptação cinematográfica, respectivamente. É confrontar as diversas opiniões e visões lapidadas em leituras e sessões repetidas, mas que se fundam, no fim das contas, nas peculiaridades da imaginação de cada leitor, de cada espectador.


Se para nós, meras colunistas de cultura, o peso da saga é oprimente, imaginamos o que não deve ser o fardo que repousou no colo do diretor David Yates, vezes seguidas: ser responsável por retratar algo que milhares de pessoas – com milhares de visões bem específicas da história – aguardam ver nas telas desde novembro de 2007. Essa fardo (alguém aí lembrou do Froddo?) é comparável talvez à carga de responsabilidade do próprio menino bruxo – que, para os desavisados (que duvido que ainda existam), é simplesmente salvar o mundo inteiro e adjacências dos desmandos e loucuras do Lord Voldemort.


No entanto, para alegria geral da nação potteriana, mais uma vez o diretor é bem sucedido em tratar o epílogo com cuidado que o mesmo merece, mostrando entendimento dos pormenores da história e consciência de suas escolhas. Desde a paleta de cores escuras, passando por posicionamentos de câmera oportunos, pela trilha sonora que evoca o clima que uma guerra dessas proporções causa, tudo contribui para criar um plano de fundo acertado e propício para o trabalho dos atores.


A esse respeito, é fácil notar que há uma maior consistência na atuação do trio central – talvez devido ao fato de os personagens já serem agora algo que habita sob a pele de cada um deles. Que Harry, Ron e Hermione amadureceram já estava mais que claro desde a primeira parte – se a guerra faz dessas coisas com aqueles que são coadjuvantes, que dirá com os que ocupam um lugar central na sua resolução, para bem ou para mal. Mas nesse capítulo, cada um se mostra especialmente mudado, seja uma Hermione mais aberta a ouvir aos outros ou um Ron que se mostra cada vez mais sagaz e pro ativo; mas a mudança mais capital é principalmente percebida no personagem central.


O garoto que aos onze anos se descobriu parte – e que parte! – de um mundo onde tudo era literalmente mágico, cheio de pessoas exóticas e correio entregue por corujas, onde tudo era alegria, descoberta, brilho e acordes maiores nas trilhas sonoras percebeu que este mundo agora está distante. No andamento natural do mito do herói, o personagem que era o arquétipo do órfão e do inocente – que é sempre orientado por seu mentor (Dumbledore), amparado e salvo por seus parceiros (Ron e Mione) – foi modificado. Agora ele é o aquele que abraçou sua causa por vontade, vocação e necessidade, teve seu caráter moldado por suas perdas e sua força garimpada pelas inúmeras ações cruéis de sua nêmese e seus comparsas.


Harry, um homem de apenas 17 anos, é a peça chave de uma batalha de proporções apocalípticas, mas não é a única peça nesta trama.


No entorno, um elenco de primeira grandeza que, às vezes com aparições apenas pontuais, confere aos seus respectivos personagens toda a carga dramática necessária para que se note, por trás de toda fantasia que é própria do mundo criado por J.K Rowling, a tangibilidade do horror que todos eles vivem. Nesse sentido, Maggie Smith, Helena Bonham Carter, Michael Gambon, Alan Rickman e Ralph Fiennes são tudo o que se espera deles e mais.


Há verdade no fascismo, insanidade e crueldade de Voldemort (Fiennes) e Bellatrix (Bonham Carter) - esses os vilões tão corrompidos pela maldade que parecem ter essa essência podre escapando pro lado externo de seus corpos, sempre sujos, com dentes apodrecidos, cobertos de fuligem.


Há verdade no tom sempre professoral e decidido de Minerva McGonagall (Smith) que assume para si a liderança da batalha de Hogwarts e demonstra em meio ao caos uma suavidade e disposição inabalável com ocasionais alívios bem-humorados, raramente vistos antes.


Há verdade nos olhos e atos da alma grinfinória de Neville Longbottom (Matthew Lewis), que mesmo em face ao horror e a destruição da batalha acha em seu coração espaço para a delicadeza inegável e irresistível do amor, e mostrando de vez as razões pelas quais ele seria "aquele que poderia ter sido" (algo tão querido e esperado pelos fãs).


Há verdade em Luna (Evanna Lynch), essa adorável excêntrica garota, em sua suavidade e doçura, na sua percepção tão clara e objetiva dos fatos, sem jamais ser pessimista com o que a circunda.


Há verdade nos olhos amáveis e cheios de culpa de Dumbledore (Gambon) presente em flashbacks cruciais numa das mais lindas e poéticas cenas de toda a série (King’s Cross jamais será a mesma depois desta obra escrita pela mais famosa britânica viva – depois rainha, talvez).


Mas, principalmente, há verdade, intensidade, profundo sentir na atuação soberba de Alan Rickman. Snape é, conforme esperado, ponto crucial para o entendimento e desenrolar da trama, mas o ator vai além. Tudo em seus olhares, gestos e modo de falar é repleto de significado e a sequência que apesenta aos espectadores suas memórias é um dos momentos de maior delicadeza e mais emocionantes de toda a película.


É claro que nem tudo é perfeito. Aqueles que desconhecem a mitologia que envolve a série podem ficar um tanto perdidos – a essa altura é natural que o roteirista e o diretor esperem do espectador o mínimo de conhecimento a respeito do curso dos fatos. Ainda assim, mesmo para os conhecedores da trama, há coisas importantes que ficam sem explicação de porque, como, de onde e para quê (fique bem atento para entender o fechamento da trama das Relíquias que dão nome ao filme).


Além disso, há falhas e alguns furos na trama herdadas do próprio livro: a superficialidade da autora em tratar a morte de personagens queridos (talvez em função do ponto de vista da narrativa ser o do próprio Harry) se repete no filme. A única partida que bem foi desenvolvida e tecida para ser sentida a fundo, no livro e no filme, é mesmo a ocorrida primeira parte do epílogo – a de Dobby. Não coincidentemente, esta é a sequencia que inicia a segunda parte, como se fosse um aviso muito claro do que estava por vir nas mais de 2 horas de projeção.


Mesmo assim, não há no filme nada que comprometa profundamente o resultado final. Yates acertou brilhantemente com seu olhar humano, honesto e porque não dizer carinhoso para com o filme e, principalmente, para com os fãs.


E se sentir vontade de chorar, não se preocupe. Todas as lágrimas que porventura teimarem em cair terão o respaldo ontológico de todas as nossas saudades, perdas, vitórias suadas e surradas, de tudo aquilo que enfim, nos enche a alma e nós faz ser quem somos. (Psicologizamos e racionalizamos, mesmo).


Portanto, entregue-se à experiência. O cinema é um lugar seguro. E escuro.


PS.: Esse filme é feito em tons escuros, sombrio e repleto de sombras. Portanto, é um tanto redundante assistir em maior estado de escuridão conferido pelo 3D (que, além de tudo, é o famoso “filme Avatarizado" - ou seja, filmado originalmente 2D e convertido para a tecnologia 3D”. Não acrescenta muito e não há grandes mudanças na experiência fílmica).


Avaliação: 4 estrelas

FICHA TÉCNICA: Harry Potter e As Relíquias da Morte – Parte 2 (Harry Potter and The Deathly Hallows – Part 2). Reino Unido/EUA, 2011. Direção: David Yates. Com Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Ralph Fiennes, Helena Bonham Carter, Michael Gambon, Alan Rickman, Maggie Smith, Tom Felton, Bonnie Wright. Cor, 131 min.


Site oficial:
http://harrypotter.warnerbros.com/harrypotterandthedeathlyhallows/mainsite/index.html

Originalmente publicado no Abacaxi Atômico

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